Quando o apito inicial do jogo entre México e África do Sul for dado nesta quinta-feira, 11 de junho, começará oficialmente a maior Copa do Mundo da história. Com 48 seleções divididas em 12 grupos e um total de 104 jogos, a edição 2026 do torneio inaugura um novo formato e amplia ainda mais o apelo da competição.
O Mundial disputado nos Estados Unidos, Canadá e México mobiliza não apenas torcedores e jogadores, mas uma ampla cadeia econômica que se espalha por diversos setores.
Entre eles, está o das apostas online: segundo uma projeção da consultoria H2 Gambling Capital, a Copa deve registrar um valor recorde de cerca de US$ 60 bilhões (R$ 311 bilhões, na cotação atual) em apostas esportivas globalmente. O número representa um crescimento de 71% em relação ao que foi estimado no Mundial do Catar, de 2022. A Sportradar, empresa de dados e tecnologia esportiva, apresentou uma estimativa próxima, de US$ 50 bilhões (R$ 259 bilhões).
No Brasil, a competição também marca um momento simbólico: será a primeira Copa do Mundo sob um ambiente regulado. Esse fator adiciona uma camada adicional de expectativa, tanto do ponto de vista de negócios quanto de supervisão do mercado.
Brasil x Egito, em amistoso pré-Copa (imagem: Rafael Ribeiro/CBF)Quem acompanha o setor viu, nos últimos meses, uma intensificação clara das movimentações por parte das operadoras. Campanhas publicitárias, ações promocionais e estratégias de aquisição passaram a girar em torno da Copa, além de investimentos robustos em branding e mídia, com foco em ampliar presença e reconhecimento de marca.
A Betano, por exemplo, anunciou uma parceria com a FIFA, tornando-se apoiadora oficial da Copa do Mundo de 2026 na América do Sul e Europa. Outras empresas também construíram acordos estratégicos ao longo dos meses: a Superbet fechou acordo de patrocínio com a Globo, ao passo que a Betnacional patrocinará a cobertura da CazéTV, que terá transmissão ao vivo dos 104 jogos no YouTube.
Esse cenário acompanha uma expectativa elevada dentro da indústria, como constatado pelo Yogonet em entrevistas realizadas com executivos do mercado nos últimos meses. Sempre que se abordava a Copa do Mundo, o campeonato era descrito como detentor de potencial de acelerar o crescimento, ampliar a base de usuários e consolidar uma indústria ainda em formação no país.
“A Copa do Mundo é um dos poucos momentos capazes de unir o país inteiro em torno da mesma conversa. E o nosso objetivo é justamente fazer parte dessa energia, dessa paixão e desse otimismo que o brasileiro vive durante o torneio”, disse Mariana Gomes, head de growth da Sportingbet, em entrevista concedida em maio.
Já Samuel Vilar, head de sportsbook do UX Group (responsável pelas plataformas Reals e Bingo), afirmou, em março, que os operadores que terão destaque na Copa “serão aqueles com uma estratégia sólida de aquisição, de novas tecnologias e de trazer novas coisas ao mercado, mas o ponto que deve ser mais abordado é a retenção, é fornecer um ambiente com jogo responsável para os jogadores”.
Em entrevista concedida nesta semana, Heitor Melo, CMO do BETesporte, chamou atenção para um aspecto que ele considera crucial.
“O principal desafio será se destacar em um mercado cada vez mais competitivo. Durante a Copa, todas as marcas aumentam seus investimentos em comunicação, então a disputa por atenção fica ainda maior. Por isso, além da visibilidade, será essencial construir confiança, relevância e uma conexão consistente com o público”, comentou Melo.
Espera-se ainda que haja a entrada de um novo perfil de apostador: o jogador ocasional, que apostará pela primeira vez e que preza por uma boa experiência. A afirmação é de uma pesquisa da OKTO PAYMENTS, segundo a qual quase metade dos brasileiros entrevistados (43,8%) diz que normalmente não aposta, mas pretende abrir uma exceção durante o torneio.
Pontos de atenção
Apesar do otimismo, o contexto em que a Copa acontece também traz pontos de atenção relevantes. O setor de apostas vive um momento de forte escrutínio público no Brasil, impulsionado por preocupações sociais e pelo ambiente pré-eleitoral.
Imagem: FreepikDa esquerda à direita, do PT ao PL, não faltam críticas, questionamentos e projetos de lei contrários ao setor. Um deles, inclusive, furou a bolha ideológica e uniu parlamentares bolsonaristas e petistas no Senado ao propor a proibição da publicidade das bets.
Esse sentimento também se reflete na população: 77,3% dos brasileiros acreditam que as apostas online têm prejudicado mais do que ajudado, sendo que 38% são a favor da sua proibição (medida também proposta no Congresso). O dado consta em uma pesquisa de abril da Confederação Nacional do Transporte (CNT).
Dessa forma, episódios negativos tendem a ganhar grande repercussão e afetar não só as empresas envolvidas, mas a imagem de todo o segmento, reforçando críticas já presentes.
A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda afirmou que irá reforçar a fiscalização sobre os operadores durante o período do Mundial.
“Já orientamos os agentes regulados sobre a necessidade de observância rigorosa das regras de jogo responsável previstas na legislação e vamos intensificar o acompanhamento das campanhas”, destacou a secretária de Prêmios e Apostas, Daniele Cardoso.
Outro desafio estrutural é a presença de operadores ilegais. Mesmo com os bloqueios determinados pelo governo, os operadores clandestinos mantêm força no país, atraindo apostadores para plataformas não autorizadas, sem política de jogo responsável e sem controles contra o acesso indevido por menores de idade.
“É fundamental que os pais também atuem como figuras centrais para a educação e conscientização desse público, que inclusive já é proibido de realizar apostas nas bets regulamentadas pelo Governo Federal. Mesmo na companhia dos pais, as apostas não devem ser destinadas às crianças”, alerta Daniel Fortune, influenciador especializado no mercado de bets.
Ele considera também que “a competitividade do torneio e a grande quantidade de boas partidas podem desencadear o desejo por mais apostas, mas o cuidado redobrado sempre deve estar presente para que o apostador não perca de vista que o jogo não deve visar o enriquecimento nem uma renda extra”.
Entre oportunidades e riscos, a Copa do Mundo de 2026 pode funcionar como um importante teste para o setor de apostas no Brasil. Mais do que os resultados financeiros, o comportamento da indústria durante o torneio tende a influenciar diretamente sua imagem pública e o rumo da regulação nos próximos anos.
Para ler mais matérias sobre o impacto do Mundial no mercado de apostas online, confira o suplemento "As Bets e a Copa", lançado pelo Yogonet.
Todo o conteúdo do suplemento possui caráter exclusivamente informativo. Não há qualquer vínculo comercial com a FIFA, nem o objetivo de promover ou comercializar produtos ou serviços relacionados à competição.