SEGMENTO NÃO DEVE DESAPARECER

EUA: mercados de previsão vieram para ficar, dizem executivos no SBC Summit Americas

25-06-2026
Tempo de leitura 5:14 min

Os mercados de previsão ainda estão envolvidos em disputas judiciais, incertezas regulatórias e debates políticos nos Estados Unidos, mas, para os executivos que atuam no setor, uma conclusão já parece definida: esse segmento não vai desaparecer.

Essa foi a principal mensagem do painel “The State of Prediction Markets in the U.S.”, realizado durante o SBC Summit Americas, em Fort Lauderdale, no dia 10 de junho. O debate reuniu representantes da DraftKings, Sporttrade, Optimove e do setor jurídico para discutir o futuro das negociações baseadas em eventos, dos produtos de previsão esportiva e da crescente convergência entre os mercados financeiros e a indústria de jogos.

Participaram da discussão Alex Kane, fundador e CEO da Sporttrade; Jeanine Hightower-Sellitto, vice-presidente sênior e gerente-geral da DraftKings Predictions; Jeff Laniado, responsável pelas operações da Optimove nos Estados Unidos; e Ian McGinley, sócio do escritório Sidley Austin.

Os participantes analisaram a evolução do marco regulatório dos mercados de previsão, a aproximação entre apostas e operações financeiras e os motivos pelos quais acreditam que o segmento ainda está apenas começando sua trajetória de crescimento.

Grande parte do debate concentrou-se na linha cada vez mais tênue entre as apostas esportivas tradicionais e os mercados de previsão, especialmente à medida que operadoras como a DraftKings ampliam sua atuação no segmento e plataformas como Kalshi e Polymarket continuam atraindo investimentos expressivos e avaliações bilionárias.

“Serão três, quatro ou talvez cinco empresas com reais condições de vencer no longo prazo”, afirmou Kane. “Tudo dependerá da qualidade e da execução dos operadores.”

Batalhas jurídicas continuam, mas mercado avança

McGinley abriu o painel traçando um panorama do cenário regulatório. Segundo ele, diversas ações judiciais envolvendo reguladores estaduais de jogos, grupos tribais e autores privados seguem em tramitação nos tribunais americanos.


No centro dessas disputas está a discussão sobre se os contratos relacionados a eventos esportivos podem ser classificados como derivativos sob a legislação federal de commodities e se a autoridade federal prevalece sobre as normas estaduais de jogos.

“Existem decisões de tribunais distritais sobre o tema”, explicou McGinley. “E é justo dizer que elas caminharam em direções diferentes.”

Ele acrescentou que muitos especialistas acreditam que a questão acabará chegando à Suprema Corte dos Estados Unidos, diante das decisões conflitantes emitidas por diferentes cortes federais. Apesar desse ambiente de incerteza, as empresas seguem investindo agressivamente no setor.

Durante o painel, a DraftKings reafirmou que considera os mercados de previsão uma oportunidade estratégica de longo prazo. Citando declarações anteriores do CEO Jason Robins, Hightower-Sellitto classificou a categoria como uma prioridade para a empresa.

“Esse mercado ainda está no seu primeiro tempo”, afirmou.

DraftKings aposta em modelo de “super aplicativo”

Segundo Hightower-Sellitto, a DraftKings acredita possuir uma vantagem competitiva relevante graças à sua infraestrutura esportiva já consolidada e à ampla base de clientes.

Recentemente, a empresa integrou os mercados de previsão diretamente ao seu principal aplicativo de apostas esportivas, criando o que seus executivos descrevem como uma experiência de “super app”, reunindo apostas e previsões em um único ecossistema.


“Poder aproveitar nossa marca e todos os nossos recursos dentro de uma experiência única para o consumidor é exatamente a direção que estamos seguindo”, disse. Ela ressaltou que mercados de previsão e sportsbooks não devem ser vistos como produtos concorrentes, mas complementares. “Os dois coexistem muito bem. São negócios diferentes em sua essência”, afirmou.

Segundo a executiva, as casas de apostas funcionam como mercados de um único operador, enquanto os mercados de previsão se aproximam mais do modelo de bolsas e corretoras, em que os participantes negociam entre si.

Para os debatedores, essa diferença pode transformar profundamente a forma como os consumidores interagem com produtos relacionados a jogos e apostas nos próximos anos.

Sporttrade vê convergência entre trading e apostas

Poucos participantes demonstraram tanto entusiasmo com a convergência entre mercados financeiros e apostas quanto Alex Kane.


A Sporttrade, que surgiu como uma bolsa de apostas esportivas licenciada em nível estadual, agora busca se posicionar como uma bolsa regulada federalmente sob supervisão da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC).

Para Kane, os mercados de previsão estão no centro de uma transformação muito mais ampla envolvendo investimentos, jogos e produtos financeiros.

“Os consumidores poderão optar por negociar ou participar de produtos tradicionais de gaming, como corridas de cavalos, cassinos online e fantasy sports, ou então operar opções, contratos futuros e ações”, afirmou. “O mercado de previsão está exatamente no meio desse diagrama.”

Kane também destacou o forte interesse dos investidores pelo segmento. Citando rodadas recentes de captação da Kalshi e da Polymarket, ele argumentou que as elevadas avaliações dessas empresas refletem ambições muito maiores do que apenas contratos ligados ao esporte. “Acho que essas avaliações mostram o quanto apostas e trading podem se tornar atividades profundamente conectadas no futuro”, disse.

Regulação segue como principal linha divisória

Um dos temas mais recorrentes do painel foi a diferença entre a regulamentação estadual das apostas esportivas e o modelo baseado em princípios adotado pela CFTC.

Kane criticou a complexidade e o detalhamento das exigências regulatórias presentes em muitos estados americanos, contrastando esse modelo com o que considera uma abordagem federal mais flexível.

“Não se trata de definir a cor da fonte ou se ela deve ter tamanho 14,5”, comentou, ao descrever suas frustrações com os processos de licenciamento estaduais. “É uma mudança completa de paradigma.”

McGinley concordou, afirmando que a estrutura regulatória proposta pela CFTC parece focada principalmente em prevenir manipulação de mercado e garantir integridade operacional, em vez de controlar detalhes específicos das operações.


Ao mesmo tempo, vários participantes reconheceram que os mercados de previsão ainda enfrentam desafios relacionados à proteção do consumidor. Um dos pontos levantados foi o fato de muitas dessas plataformas permitirem acesso a usuários com 18 anos ou mais, enquanto a maioria dos mercados de apostas esportivas nos EUA exige idade mínima de 21 anos.

Hightower-Sellitto afirmou que a DraftKings já implementou mecanismos de “trading responsável”, inspirados nos programas de jogo responsável utilizados pela indústria de apostas. “É algo que a CFTC precisará abordar”, disse.

Retenção de clientes evolui junto com o mercado

Sob a perspectiva de marketing e CRM, Jeff Laniado explicou que os mercados de previsão já estão alterando a forma como as empresas avaliam retenção e valor dos clientes.

Enquanto muitas estratégias tradicionais de sportsbooks se concentram em depósitos, receita líquida de jogos e cross-sell para cassino, os operadores de mercados de previsão tendem a priorizar volume de negociação, liquidez e eficiência dos spreads.

“A própria mecânica desses negócios determina quais comportamentos buscamos incentivar por meio do marketing”, afirmou.

Ainda assim, diversos padrões de comportamento dos consumidores permanecem semelhantes. Empresas que atraem grandes volumes de usuários durante eventos como a Copa do Mundo ou o Super Bowl enfrentam o mesmo desafio dos mercados de previsão: manter o engajamento após o encerramento desses eventos.

“Os usuários que negociam em diferentes produtos costumam gerar mais valor”, observou Laniado.

O próximo estágio dos mercados de previsão

Ao final do painel, os participantes foram questionados sobre onde acreditam que a indústria estará em 2027.

McGinley previu que os mercados de previsão sobreviverão ao atual escrutínio regulatório, mesmo que futuras regras da CFTC imponham restrições a determinadas áreas do setor.

Kane apostou em um processo de consolidação, argumentando que apenas um pequeno grupo de grandes operadores deverá dominar o mercado.

Já Hightower-Sellitto apresentou uma visão mais ampla: para ela, os mercados de previsão podem deixar de ser vistos como algo controverso. “Acredito que os mercados de previsão simplesmente passarão a fazer parte da paisagem geral”, afirmou. “Não serão mais controversos. As pessoas entenderão como funcionam.”

Laniado compartilhou dessa visão e acredita que o setor continuará expandindo sua oferta de produtos e mercados. “Provavelmente veremos ainda mais desenvolvimento de produtos e uma variedade maior de mercados disponíveis ao longo do próximo ano”, concluiu.

No Brasil, uma resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) publicada em abril impede mercados de previsão em esportes e demais eventos fora da temática econômica-financeira. O Ministério da Fazenda solicitou ainda o bloqueio dos sites da Polymarket e da Kalshi no país.

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