Era março de 2024 quando Hugo Baungartner afirmou ao Yogonet que o texto final da lei de regulamentação das bets atendia “85% do que o mercado precisava”. Na época, o marco regulatório ainda não tinha entrado em vigor e o impacto das novas regras não podia ser sentido na prática.
Passados dois anos e com o setor já operando sob um modelo regulado, Baungartner mantém a avaliação positiva? Durante o SBC Summit Rio 2026, o Yogonet fez essa e outras perguntas ao executivo, que atualmente ocupa o cargo de chief business officer (CBO) do Esportes Gaming Brasil, grupo responsável pelas plataformas de apostas Esportes da Sorte, Lottu e Onabet.
Confira:
No primeiro SBC Summit Rio, em 2024, você falou, em entrevista ao Yogonet, que o texto final da regulamentação atendia 85% do que o mercado precisava. Hoje, dois anos depois e já com um ano de mercado regulado, como é que você vê o setor de apostas online no Brasil? Você acha que você acertou naquela porcentagem de 85%?
Acho que acertei. O Brasil começou a regulamentação em um nível realmente muito mais alto do que outros países, outras jurisdições. Em eventos a que tenho ido e conversado com outros operadores do mundo, eu falo que nós temos KYC 100% implementado, o Pix (uma grande vantagem do Brasil, em que você consegue identificar quem está depositando), certificação de RGS e RNG e que são cinco documentos para que um jogo possa ser explorado na nossa operação.
Essa lei [da regulamentação das apostas] não é engessada, ela vai continuar melhorando. Existem um ou dois pontos que talvez poderiam ser melhorados, mas, sinceramente, o trabalho da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) foi muito bem feito, e não só em termos de legislação. Nesse primeiro ano, eles conseguiram entender melhor o mercado, entenderam que existe uma concorrência grande do mercado ilegal e também já entenderam como combater os ilegais juridicamente e com as ferramentas que eles têm.
Falando sobre o mercado ilegal, a SPA está com uma consulta pública aberta sobre a entrada dos provedores na regulamentação das bets. Tem gente que acredita que isso pode ser um grande impulso para ajudar a combater o mercado ilegal, porque hoje existem provedores que fornecem jogos tanto para uma casa de apostas autorizada quanto para um ilegal. Você acha que é positiva essa entrada dos fornecedores na regulamentação?
Tenho certeza que sim. Inclusive, essa conversa fez parte em 2024, quando a gente ainda estava terminando de conversar realmente sobre como deveria ser a regulamentação. Só que, naquele momento, a SPA não conseguia fazer isso. Ela tinha que fazer o B2C primeiro e, depois, fazer o B2B. Parte desse ano de aprendizado foi em relação a isso. Ela entendeu que existem provedores de serviço que atendem às duas indústrias.
Então, parte do trabalho deles foi conhecer quem são esses provedores para que pudesse regulá-los e entender "olha, provedor, por que você está provendo para um regulado e para um não regulado?".
Existem desafios nesse caminho? Existem, mas é super positivo ela ter feito essa iniciativa. É algo que vai demorar ainda seis, oito, dez meses, mas acho que eles conseguem fazer nesse ano ainda.
Um segundo ponto positivo dessa regulamentação B2B é que as empresas que não estão no Brasil ainda vão ser obrigadas a vir. Isso leva à geração de empregos, pagamento de impostos no Brasil e, para nós operadores, facilita muito, porque o dinheiro, no final das contas, acaba ficando no Brasil e não tem que fazer um pagamento lá fora, o que dificulta muito. Vejo com bons olhos essa regulamentação B2B.
Em três meses, será realizada a Copa do Mundo. A edição de 2026 é interessante por dois aspectos: é a maior da história em número de seleções e de jogos e também vai ser a primeira Copa com o mercado regulado. Qual a sua expectativa para o torneio? Acredita que será um divisor de águas para o setor?
Todo mundo tem que estar preparado para a Copa do Mundo, tanto em termos internos como de produto. Cada dia que passa, nosso cliente vai ficando mais exigente, mais conhecedor da nossa indústria.
Faz parte da nossa lição de casa ter um produto melhor para a Copa do Mundo. E eu tenho certeza que vai ser um grande evento, não só no lado esportivo, mas também para nós como operadores de aposta de quota fixa.
Você tem acompanhado o cenário dos mercados de previsão (prediction markets) nos Estados Unidos? Algumas pessoas veem isso com preocupação. Você acha que existe motivo mesmo para o setor ficar preocupado também no Brasil?
Não vejo como uma coisa negativa. É um outro tipo de negócio que não tem nada a ver com aposta de quota fixa. Vejo como algo que tem que ser regulamentado não pela SPA, não pelo Ministério da Fazenda em si, mas pela CVM [Comissão de Valores Mobiliários]. É outra história.
Acredito que o brasileiro ainda tem que se educar para entender um pouquinho melhor como isso funciona. É uma coisa a ser estudada. Não tenho dúvida de que o governo brasileiro vai enxergar isso e regulamentar no momento correto.