O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) classificou o vício em apostas como “um drama que atinge os lares brasileiros”. Ele afirmou ainda que trabalhará junto com o Congresso e o Judiciário para combater o endividamento da população com gastos em cassinos online. A fala fez parte do pronunciamento especial do Dia da Mulher, que foi ao ar em cadeia nacional de rádio e televisão na noite de sábado, 7 de março.
A menção aos jogos de azar online surgiu em meio a um discurso que abordou temas como combate ao feminicídio, igualdade salarial entre homens e mulheres, fim da escala de trabalho 6x1 e distribuição gratuita de absorventes.
“Outro drama que atinge os lares brasileiros é o vício em apostas. Embora a maioria dos viciados sejam homens, a conta recai sobre as mulheres. É o dinheiro da comida, do aluguel, da escola das crianças que desaparece na tela do celular”, afirmou Lula.
“Os cassinos [físicos] são proibidos no Brasil. Não faz sentido permitir que os Jogos do Tigrinho entrem nas casas, endividando as famílias pelo celular. Vamos trabalhar unindo o Governo, o Congresso e o Judiciário para que esses cassinos digitais não continuem endividando famílias e destruindo lares”, continuou o presidente.
O mandatário não explicou que tipo de medida pretende tomar. Parte da indústria, no entanto, viu, na mensagem, uma ameaça de proibição dos cassinos online.
O discurso de Lula pode ser assistido abaixo (o trecho referente às apostas começa aos quatro minutos e onze segundos):
A poucos meses das eleições, referências críticas às casas de apostas tornaram-se comuns nos pronunciamentos de Lula. Em fevereiro, por exemplo, ele disse que iria "tomar uma atitude muito séria contra as bets porque elas estão tirando o dinheiro do povo pobre deste país”.
Em pronunciamento oficial repercutido pelo site BNLData, a Associação de Mulheres da Indústria do Gaming (AMIG) afirmou ter recebido com “surpresa e preocupação” o discurso de Lula.
“Ao criticar o setor, o Presidente revela desconhecimento sobre um mercado que gera emprego, renda e receita ao próprio Governo. E, mais importante: emprega e valoriza a liderança feminina”, disse a entidade composta por cerca de 1,4 mil associadas.
A AMIG alegou ainda que “aproveitar-se de um momento que deve ser de exaltação das mulheres brasileiras para ameaçar uma medida que pode ter impacto direto em mulheres trabalhadoras e que sustentam sua família de maneira ética e digna não pode ser aceitável em nenhuma hipótese ou cenário.”
Confira, abaixo, a íntegra da nota da AMIG:
A AMIG – Associação de Mulheres da Indústria do Gaming recebeu com surpresa e preocupação o discurso do Presidente da República em homenagem ao Dia Internacional das Mulheres, data de extrema importância que simboliza a luta histórica por igualdade de direitos, condições de trabalho dignas e contra o machismo e a violência.
Para a AMIG, esta data não é apenas simbólica – é um lembrete permanente da responsabilidade coletiva de transformar estruturas, ampliar oportunidades e garantir que mulheres ocupem espaços de liderança e tomada de decisão em todos os setores da sociedade, incluindo na indústria de jogos e apostas brasileira.
Ao criticar o setor, o Presidente revela desconhecimento sobre um mercado que gera emprego, renda e receita ao próprio Governo. E, mais importante: emprega e valoriza a liderança feminina.
Hoje, a AMIG reúne mais de 1.400 associadas, mulheres que atuam diariamente na construção de um setor de jogos e apostas no Brasil ético, responsável, inovador e economicamente relevante. São profissionais que ocupam posições estratégicas em áreas como tecnologia, compliance, jurídico, marketing, pagamentos, integridade esportiva e governança corporativa.
Segundo o mais recente levantamento da AMIG, mulheres estão presentes em todas as etapas da cadeia produtiva da indústria, contribuindo diretamente para o desenvolvimento de um ecossistema cada vez mais profissionalizado, seguro e alinhado às melhores práticas internacionais.
A AMIG representa, portanto, uma parcela significativa da indústria de jogos e apostas no Brasil – um setor que vem se desenvolvendo de forma lícita, regulada e responsável, contribuindo para avanços tecnológicos, aperfeiçoamento de práticas publicitárias, investimentos no esporte e fortalecimento das políticas de jogo responsável.
Esse impacto também se reflete na economia. Apenas no último ano, foram arrecadados 4.5 bilhões de reais em destinações específicas pagas pelos operadores, recursos que retornam à sociedade por meio de diversas políticas públicas.
Boa parte disso, vale frisar, fruto do trabalho diário e dedicado de mulheres que vieram do zero, em um setor que sequer existia anos atrás.
Um setor com esse nível de impacto econômico e social – e com potencial para se tornar um dos três maiores mercados regulados do mundo – não pode avançar sem ser levado a sério e sem considerar a promoção da igualdade de gênero e o fortalecimento da presença feminina em posições estratégicas.
Esse continuará sendo o compromisso central da AMIG: respeitar, valorizar, incentivar e ampliar a participação de mulheres altamente qualificadas nos espaços de liderança, decisão e inovação dentro da indústria.
Aproveitar-se de um momento que deve ser de exaltação das mulheres brasileiras para ameaçar uma medida que pode ter impacto direto em mulheres trabalhadoras e que sustentam sua família de maneira ética e digna não pode ser aceitável em nenhuma hipótese ou cenário.
Nesse Dia Internacional da Mulher, a AMIG deseja que o futuro do setor de jogos e apostas no Brasil também passe pela valorização da liderança, da competência e da visão transformadora das mulheres que ajudam a construí-lo todos os dias. O crescimento do setor de jogos e apostas no Brasil também é uma história construída por mulheres.