Em crônica compartilhada com o Yogonet, Fellipe Fraga, CBO da Stellar Gaming, reflete sobre a proibição de apostas por negativados que aderirem ao programa de negociação de dívidas Desenrola 2.0. A medida,
No texto, o executivo levanta questões sobre proteção social, direito ao entretenimento e endividamento da população por meio do crédito.
Confira:
Era uma quarta-feira qualquer, num futuro, talvez, não tão distante. Jorge levanta cedo da cama. É dia importante: seu time do coração vai jogar uma partida da Copa Sul-Americana, pela primeira vez. A ansiedade a mil.
O dia ia transcorrendo como sempre, trabalho — sempre árduo — para pagar as contas. Jorge nunca foi lá um cara de dívidas, tem um trabalho razoável, apesar de o chamarem de “classe média”, na prática vende o almoço para pagar o jantar. Mas aquela droga de vazamento no cano da cozinha… ali não teve jeito. Precisou recorrer ao RoxoBank. Crédito rotativo, 19,75% ao mês, que ele não entendeu muito bem na hora, mas que depois virou uma bola de neve. Isso sem contar o preço dos alimentos, da gasolina, do transporte, dos remédios, do básico.
Como as contas não param de chegar, porque o cartão BancoLaranja foi sendo usado como solução provisória que virou definitiva, duas parcelas atrasaram, e veio a cartinha. Nome negativado. Como o de mais de 81 milhões de brasileiros, o que dá quase a sensação de que não é um problema individual, mas um estado civil.
Mas hoje não era dia de pensar nisso.
Às 17h, era hora de sair do trabalho, pegar o ônibus e partir rumo ao estádio. Depois de duas horas, Jorge chegou. Deu aquela passada na loja oficial do clube, mas a camisa a R$ 450,00 não era para agora. Quem sabe numa promoção no fim do ano. Virando a curva no contorno do estádio, hora de uma cervejinha, aquela que só tem espaço na quarta-feira e no domingo, na hora do jogo.
— Qual o seu CPF?
— Meu CPF? Tem isso agora?
— Sim.
— Ah, tá.
E disse os onze dígitos.
— O senhor não está autorizado a comprar cerveja.
— Como assim!?
— O senhor está negativado.
— Mas… o que isso tem a ver?
— Ah, senhor, é coisa nova. Dizem que é para o bem de todos.
Jorge nem quis discutir. Tinha jogo.
Melhor entrar logo no estádio, olhar para o campo, esquecer um pouco da vida.
Na bilheteria, a pergunta, quase igual:
— Boa noite, torcedor! Animado? Qual o seu CPF?
— Aqui também?
— Sim, é coisa nova.
— Eita… é esse aqui, ó.
O atendente digitou, olhou para a tela com a mesma expressão de quem já tinha dado aquela notícia muitas vezes naquele dia.
— Senhor, infelizmente o senhor não está autorizado. Seu nome está negativado.
A voz de Jorge ecoou junto a outras tantas que já formavam fila ali na bilheteria. Era muita gente sem conseguir entrar. Muita gente com o mesmo problema. Ou melhor, com o mesmo status.
Frustrado, saindo dali, Jorge esperou o sinal do telefone voltar para ver que na rede social OQueEstAPPassando a turma reclamava: sem futebol, sem teatro, sem cinema, sem bar, sem restaurante, sem parque. Entretenimento foi proibido para negativado.
Alguém comentou que era para evitar excessos. Outro disse que era proteção social. Teve até quem comemorasse, dizendo que agora o país estava mais responsável.
Jorge pensou em pelo menos fazer uma aposta. Nunca apostava mais do que R$ 50 por mês. Era uma forma de se divertir com jogos aleatórios, especialmente quando seu time não estava em campo. Tinha um saldo lá, ia aproveitar e assistir o jogo pela NaquelaBet. Essa ele sabia que era certinha, tinha até o selinho do governo — já tinha tido problema com umas de nome estranho que apareciam no FotoGram.
Mas aí lembrou: já fazia um tempo que ele, ou qualquer outra pessoa, não podia fazer isso. Jorge podia pegar crédito a quase 20% ao mês. Podia se endividar. Podia pagar juros. Mas não podia se divertir.
Ficou ali parado por alguns segundos, tentando entender em que momento exatamente aquilo tinha deixado de parecer estranho. E percebeu que tudo tinha começado ali. Não quando proibiram o futebol. Nem quando proibiram o bar. Mas quando decidiram, com a melhor das intenções, que o problema nunca era o sistema. Era sempre a escolha de quem estava dentro dele.