COBRA ESCLARECIMENTOS

IBJR notifica CNC e exige transparência sobre estudo que associa apostas ao endividamento

Imagem: Freepik
28-04-2026
Tempo de leitura 2:18 min

 Às vésperas da coletiva de imprensa agendada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) para apresentar seu novo levantamento sobre o mercado de apostas online, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) enviou uma notificação formal à entidade

O documento, encaminhado na segunda-feira, 27 de abril, cobra esclarecimentos sobre a metodologia e o acesso integral às bases de dados que fundamentam o estudo. A entidade afirma que o estudo parte de uma premissa desalinhada com os dados oficiais. 

O material da CNC já foi expressamente citado na justificação do Projeto de Lei nº 1.808/2026 (que proíbe as apostas de quota fixa no Brasil). De acordo com a proposta, o estudo alega que o varejo nacional teria deixado de faturar R$ 103 bilhões ao longo de 2024 em razão do redirecionamento de recursos para as plataformas. A pesquisa da confederação também estima que os brasileiros teriam destinado cerca de R$ 240 bilhões às bets em 2024.

Na visão do IBJR, as conclusões divulgadas pela CNC são alarmistas e contrariam as métricas oficiais recentemente apuradas pelo Estado brasileiro. 

“O balanço oficial do primeiro ano completo do mercado regulado apontou que a receita bruta total (GGR) das empresas em 2025 foi de R$ 37 bilhões. Este valor, que corresponde ao arrecadado descontando os prêmios pagos aos apostadores, evidencia que a estimativa da CNC de R$ 240 bilhões destinados às apostas é insustentável na realidade”, pontua o IBJR.

“Além disso, a SPA reportou que 25,2 milhões de brasileiros realizaram apostas no período, reforçando a necessidade de tratar o mercado com base em fatos e regulação estrita, não em especulações que fundamentam propostas extremas de banimento”, ressalta o instituto.

O IBJR cita ainda um estudo da LCA Consultoria Econômica, segundo o qual os gastos líquidos anuais da população com apostas esportivas representam entre 0,2% a 0,5% do consumo total das famílias brasileiras. O impacto sobre a economia nacional também é reduzido, variando entre 0,1% e 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB). 

“Se as famílias tivessem dedicado 100% de seus gastos líquidos com apostas para quitar as próprias dívidas, o endividamento total diminuiria em menos de 0,5 ponto percentual”, argumenta o IBJR.

O instituto alega que, como atestado pelos indicadores do próprio Banco Central e por levantamentos anteriores da CNC, o endividamento familiar sofreu diminuição e o percentual de famílias endividadas manteve-se estável ao longo de 2022 a 2024.

Essa percepção teria sido corroborada pela Nota Informativa SEI nº 574/2024/MDIC, onde o Governo Federal atestou a inexistência de indícios de impacto relevante da indústria de apostas no endividamento dessas famílias, argumenta o IBJR.

Na notificação enviada à CNC, o IBJR concedeu o prazo formal de cinco dias úteis para a disponibilização dos seguintes pontos:

  • Base de dados completa: indicação detalhada das fontes primárias e secundárias, universo amostral e tratamento estatístico empregado para sustentar a conclusão de que o varejo teria perdido o faturamento de R$ 103 bilhões em razão das apostas, bem como a origem da estimativa de R$ 240 bilhões.
  • Metodologia rigorosa: descrição pormenorizada dos modelos econômicos aplicados, variáveis consideradas, hipóteses testadas e critérios de causalidade que isolariam os efeitos das apostas sobre o balanço comercial.

“O IBJR reitera seu compromisso com o diálogo transparente e construtivo. A associação reconhece o grande valor da pesquisa empírica, contudo, defende que a pauta acerca do mercado brasileiro plenamente regulamentado e fiscalizado exige o máximo de responsabilidade, transparência metodológica e dados que reflitam a verdadeira realidade econômica do país”, salientou a entidade.

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