Durante o BiS SiGMA South America 2026, realizado em São Paulo (SP) no começo de abril, o sócio e COO do grupo A2FBR, Angelo Alberoni, conversou com o Yogonet e fez um balanço da regulamentação até aqui. Ele destacou os avanços, mas também apontou instabilidades que têm freado investimentos e gerado dificuldades para os operadores.
O grupo A2FBR tem licença para operar seis sites de apostas no Brasil, entre eles, a Pinnacle.
Na entrevista, foram abordados ainda temas centrais para o momento atual da indústria, como a concorrência com o mercado ilegal, a discussão em torno dos prediction markets e as expectativas para a próxima Copa do Mundo — a primeira sob um mercado regulado no Brasil.
Falava-se muito que a regulamentação iria trazer segurança jurídica, facilitar a geração de empregos, a atração de investimento e deixar o setor mais organizado. Em 2026, já no segundo ano de mercado regulado, você diria que essa expectativa foi atendida ou você acha que ainda há um longo caminho a percorrer?
Do ponto de vista do arcabouço regulatório, principalmente relacionado ao jogo responsável, à lavagem de dinheiro, às regras relacionadas à atividade de apostas, sim, acho que a gente tem uma segurança jurídica muito bem feita nesse processo de regulamentação. As portarias da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) foram muito bem debatidas com o setor.
Em relação a aspectos externos que influenciam diretamente a indústria em si, a gente tem realmente passado por alguns percalços. A questão tributária é sempre um tormento, porque a cada mês surge um novo projeto de lei ou a ideia de uma medida provisória (MP) em que a tributação pode ser alterada.
A falta de educação também… O próprio setor ainda não conseguiu cumprir essa lacuna, de esclarecer que é uma atividade de entretenimento. Acaba havendo uma confusão com a questão do endividamento: é muito recorrente essa pauta em relação à indústria, sem dados muito robustos comprovando que existe, de fato, essa correlação.
Existe uma instabilidade jurídica — não vou chamar de insegurança, mas de uma instabilidade — nesses primeiros dois anos, em que, de fato, o setor acaba puxando o freio de alguns investimentos.
Hoje, os patrocínios a clubes de futebol têm reduzido drasticamente. Ano passado, tínhamos 100% dos clubes da Série A patrocinados por marcas de apostas. Atualmente, essa porcentagem está na casa dos 60%. A tendência é diminuir cada vez mais.
Então, essa instabilidade jurídica tem afetado bastante o setor do ponto de vista de investimentos.
A predominância do mercado ilegal também é comumente citada pelo setor como algo preocupante. Você compartilha dessa preocupação?
Sem dúvida. Os operadores ilegais ainda têm uma grande fatia do mercado nacional. e é uma competição muito desajustada. Eles oferecem bônus sem nenhum tipo de limitação, não há controle de jogo responsável ou de prevenção à lavagem de dinheiro… Isso sequer é feito.
O mercado legal fez um investimento de R$ 30 milhões na licença, em uma reserva de R$ 5 milhões, investe em marketing e em educação para o consumidor. Além disso, é alvo de muitas tentativas de majoração de imposto. A gente acaba pagando a conta também do mercado ilegal.
Volto na falta de educação, principalmente do governo — não vou nem dizer do regulador, da SPA — mas do governo, em que ele acaba atacando o setor legal, majorando imposto, criando cada vez mais barreiras. Indiretamente, ele acaba aumentando o fluxo de marcas para o mercado ilegal.
Estamos em um período ainda muito novo do setor regulado no Brasil. A SPA tem cada vez mais enfrentado o problema e criado ferramentas junto com o Banco Central. Acho que a tendência é que a gente consiga inibir esse mercado ilegal de uma maneira mais efetiva.
Portugal, por exemplo, até hoje tem um mercado ilegal muito grande, com uma regulação que já tem mais de dez anos. A Alemanha também possui esse problema. Então, é um mal com que a gente vai conviver.
Agora, precisamos ter limites — não vou dizer aceitáveis, mas razoáveis — dentro de uma fiscalização, o que não temos hoje.
Qual a sua opinião sobre os mercados de previsão (prediction markets)? Eles devem ser regulados como apostas e solicitar licença à SPA ou devem operar sob o crivo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM)?
Quando você vai para o prediction, principalmente para esportes, você acaba fazendo uma previsão de um evento esportivo incerto, colocando dinheiro na expectativa de ter um retorno financeiro. Isso é aposta, é aposta crua.
É uma atividade-fim como a nossa. O prediction market nada mais é do que uma forma de tentar contornar a lei, não só aqui como também em outros mercados fora do Brasil. Nos Estados Unidos, já existem estados barrando os prediction markets. A Holanda também tomou essa decisão.
No Brasil, ainda tem um agravante: as únicas atividades possíveis de apostas são as esportivas, que são liberadas pelo Ministério do Esporte. No prediction, é possível apostar sobre eleição, economia, tempo e ainda aposta esportiva.
Acaba sendo uma concorrência desleal com quem fez o investimento na licença, fez o pagamento da taxa e investe aqui no Brasil desde o dia um da regulamentação.
Para mim, não existe nem discussão: é aposta esportiva e deveria, sim, ter uma licença. Se eles querem explorar aposta esportiva no modelo deles, que submetam uma licença à SPA.
Daqui a dois meses, será realizada a Copa do Mundo, a primeira com mercado regulado online no Brasil e a maior em número de seleções e jogos. Como está a expectativa da Pinnacle, que é uma das casas de apostas operadas pelo grupo A2FBR?
A Pinnacle tem um histórico muito grande em Copas do Mundo, sendo uma das primeiras casas de apostas. Ela foi fundada no final dos anos 90 e possui experiência desde a Copa de 2002, com um histórico de odds competitivas no mercado.
Para a Copa do Mundo desse ano, a expectativa é de aumentar o turnover da marca e criar mais cadastros. Estamos fazendo algumas ações com a Paloma Tocci, nossa embaixadora, e estamos patrocinando o bolão da 89 FM para levar torcedores para assistir à Copa.
A Copa do Mundo é um evento único, de quatro em quatro anos, e todas as marcas aproveitam esse momento para dar um boom na operação.