ENTREVISTA COM O SECRETÁRIO DE APOSTAS ESPORTIVAS

Giovanni Rocco Neto: "Basquete é o esporte que mais preocupa em manipulação de resultados, junto com o futebol"

Giovanni Rocco Neto, secretário de Apostas Esportivas e Desenvolvimento Econômico do Esporte.
08-04-2026
Tempo de leitura 3:12 min

Um dos destaques do primeiro dia de conferências do BiS SiGMA South America 2026, realizado em 7 de abril, em São Paulo (SP), foi a participação de Giovanni Rocco Neto. O secretário de Apostas Esportivas e Desenvolvimento Econômico do Esporte (pasta subordinada ao Ministério do Esporte) esteve entre os palestrantes do evento e abordou temas centrais para o momento atual do mercado regulado brasileiro.

À frente de uma secretaria que tem, entre suas atribuições, a proteção à integridade das competições, Rocco Neto discutiu os avanços institucionais recentes do país no combate à manipulação de resultados

Ele comentou, entre outros assuntos, a recém-publicada Política Nacional de Enfrentamento à Manipulação de Resultados, considerada um marco na estruturação das ações coordenadas entre diferentes órgãos do Estado.

Em entrevista exclusiva ao Yogonet concedida durante o evento, o secretário detalhou os impactos práticos da nova política, a cooperação entre governo e operadores e o desenvolvimento de um sistema para fazer o monitoramento das odds das casas de apostas, e, assim, detectar indícios de manipulação.

Na semana passada, foi publicada a Política Nacional de Enfrentamento à Manipulação de Resultados. Quais os principais benefícios que o país terá com essa política?

Na prática, a gente passa a ter uma estrutura de Estado institucionalizada para enfrentar esse problema que atinge o esporte, a economia, os atletas e a imprevisibilidade do resultado — que é o que mais fascina no esporte.

O Ministério do Esporte atua como um ministério-meio, não como fim, porque faz a articulação e protege o atleta com informação.

A Política Nacional de Combate à Manipulação de Resultados faz com que Polícia Federal, Ministério da Fazenda e Ministério do Esporte cumpram, cada um, o seu papel. Agora está estruturado.

Geralmente, quando se fala em manipulação de resultados, a primeira coisa que vem à cabeça é o futebol. Além dele, você vê alguma modalidade mais vulnerável no Brasil?

O basquete é o que mais me preocupa hoje, junto com o futebol, por conta de apontamentos que já tivemos. 

Quando fizemos o ataque [à manipulação] no futebol, uma das preocupações foi a migração das quadrilhas para outras modalidades, e já identificamos uma movimentação no basquete. 

A plataforma educacional que lançamos hoje, em parceria com a ANJL [Associação Nacional de Jogos e Loterias] e a Sportradar, vem para entregar conhecimento ao atleta. 

Um dos conceitos da política nacional é educar para não precisar punir — e, quando punir, que seja de forma pedagógica, para também educar.

Você pode explicar como funciona o sistema de monitoramento em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA)?

É uma estrutura sistêmica que faz o monitoramento, a raspagem, em tempo real, das cotações das odds durante as partidas. Se há uma queda repentina nas odds, sem justificativa, é um indício de manipulação de resultados.

Para aderir à Convenção de Macolin, um dos requisitos era ter um sistema próprio de monitoramento. Quando começamos a buscar sistemas no mercado internacional, os preços eram exorbitantes. 

Então, surgiu a ideia de construir nosso próprio sistema. Identificamos na Universidade Federal do Pará um supercomputador e uma equipe técnica com capacidade para desenvolver com um custo acessível para o Estado, replicando boas práticas de mercados maduros.

O enfrentamento à manipulação de resultados exige muita cooperação entre governo, federações e operadores. Na sua avaliação, os operadores têm contribuído o bastante? Há espaço para melhorar essa colaboração?

Há espaço para melhorar, e contribuir mais. O que também falta é mais informação para eles, e a Política de Enfrentamento traz isso.

Existe um capítulo sobre a responsabilidade dos operadores. Junto com a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), o próximo passo da inteligência sistêmica será analisar os dados que as operadoras entregam ao Sistema de Gestão de Apostas (SIGAP), as informações que elas são obrigadas a enviar no final do dia. Vamos identificar se uma operadora detectou apostas suspeitas que outras não conseguiram identificar. Haverá uma construção com eles, isso tudo em parceria com a SPA.

Os mercados de previsão em esportes também trazem riscos para a integridade esportiva? São mais difíceis ainda de monitorar?

Sim, trazem riscos. Quando você determina previamente o resultado, se isso não for aposta, não sei o que é. Ainda mais quando você pré-determina o quanto você vai ganhar. Isso é quota fixa.

Ao colocar isso no ambiente esportivo, existe uma grande preocupação com a integridade. 

Se eles [mercados de previsão] querem fazer especulação no mercado financeiro, que eles continuem fazendo no mercado financeiro… Isso é um problema da CVM [Comissão de Valores Mobiliários].

Se querem fazer isso no setor esportivo, eles têm que ter a responsabilidade de aplicar a licença [de apostas de quota fixa] e cumprir as regras.

Inclusive, já provocamos a SPA [sobre o assunto], e acredito que, em um futuro próximo, ela vai ter que soltar uma nota técnica e bloquear esses sites. A ação é essa.

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