A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) divulgou posicionamento nesta quinta-feira, 26 de março, questionando pesquisa do Ibevar em parceria com a FIA Business School. O estudo, repercutido por diferentes veículos de comunicação, aponta as apostas online como fator predominante no crescimento das dívidas das famílias brasileiras entre 2011 e 2025.
A entidade alega ter identificado inconsistências metodológicas no levantamento, afirmando que os dados apresentados não correspondem às estatísticas oficiais sobre crédito e consumo doméstico disponíveis no país.
O trabalho busca explicar a evolução do endividamento com base em quatro variáveis. São elas: a relação entre crédito e renda das famílias, a taxa de juros das operações para pessoa física, o tempo decorrido desde 2011 e um indicador de "interesse por apostas". Este último foi extraído do comportamento nas redes sociais.
A ANJL aponta fragilidade conceitual nessa estrutura. A métrica de "interesse por apostas" registra apenas a atenção dispensada ao assunto nas plataformas digitais. Não quantifica os recursos financeiros efetivamente destinados pelas famílias a essa atividade, aponta a entidade.
A associação afirma que o indicador não estabelece o impacto monetário real nos orçamentos domésticos. "A pesquisa constrói uma associação entre endividamento e a visibilidade de um tema. Não relaciona endividamento e desembolsos concretos com apostas", diz a entidade.
"Essa escolha metodológica produz distorções substanciais na interpretação dos dados. Períodos de ampla discussão pública sobre o assunto, como os trabalhos da CPI das Bets, poderiam ser classificados como elementos explicativos do endividamento", argumenta a ANJL.
A associação afirma que essa fragilidade impede o estabelecimento de relações de causa e efeito. "Uma investigação adequada demandaria informações sobre desembolsos efetivos com apostas em proporção à renda das famílias."
Na visão da ANJL, a existência de um mercado de apostas sem regulamentação no Brasil impede a coleta de dados precisos. Mesmo dispondo de informações sobre o segmento regulamentado, seria necessário rigor ao formular inferências sobre o impacto das apostas no endividamento.
"A carência de dados confiáveis sobre o volume financeiro movimentado prejudica a validade de afirmações categóricas sobre o tema. O estudo apresenta também uma contradição lógica em sua arquitetura", continua a associação.
Juros e acesso ao crédito constituem, por natureza, os mecanismos diretos de formação de dívidas. Outros elementos, incluindo gastos com apostas, exercem apenas efeitos indiretos sobre o endividamento, pontua a ANJL.
"As apostas podem comprometer o orçamento familiar. Só se transformam em dívida quando há acesso a instrumentos de crédito disponíveis. Esse mecanismo de transmissão não foi incorporado na pesquisa. O levantamento também não incluiu outros gastos das famílias nem suas participações na renda total", diz a entidade.
Segundo a ANJL, a conclusão apresentada afirma que as apostas teriam impacto superior aos próprios determinantes diretos da dívida. Essa inversão contraria a lógica econômica básica sobre formação de endividamento doméstico.
A associação menciona ainda que informações oficiais do Ministério da Fazenda revelam um panorama diferente do sugerido pelo levantamento. Mais da metade dos brasileiros que apostam declara gastar até R$ 50 com essa atividade. Apenas uma parcela minoritária reporta gastos elevados.
Essa distribuição indica que, para a maioria das famílias, as apostas representam uma fração limitada do orçamento mensal disponível. A configuração, argumenta a ANJL, não é compatível com a hipótese de que as apostas sejam o principal motor do endividamento agregado das famílias brasileiras.
Imagem: FreepikA concentração de gastos em valores reduzidos sugere que outros fatores exercem influência mais determinante sobre a evolução das dívidas domésticas. A ANJL aponta essa discrepância como evidência adicional das fragilidades do estudo.
A qualidade dos dados sobre juros utilizados na pesquisa também foi questionada pela associação. A série apresentada não reflete os ciclos conhecidos da política monetária conduzida pelo Banco Central. As estatísticas oficiais do BC apresentam um quadro distinto do proposto pela pesquisa. Houve queda nas taxas até 2013-2014. Ocorreu forte elevação em 2015-2016. Nova redução aconteceu até 2019. Aumento relevante foi registrado entre 2021 e 2023.
Esse movimento cíclico não aparece no gráfico do estudo analisado. O gráfico sugere estabilidade em um período marcado por variações significativas nas taxas de juros praticadas.
"Essa discrepância levanta dúvidas sobre a consistência da base de dados utilizada na pesquisa", diz a ANJL. A entidade considera que essa falha compromete a confiabilidade das análises derivadas dessas informações.
"A precisão dos dados sobre juros é fundamental para qualquer estudo sobre endividamento familiar no país. O próprio estudo reconhece a sobreposição entre os efeitos de juros e crédito. Essas variáveis evoluem de forma correlacionada ao longo do ciclo econômico. Influenciam-se mutuamente."
Apesar desse reconhecimento, a pesquisa compara diretamente esses fatores com o efeito atribuído às apostas. Essa comparação trata as variáveis como se fossem independentes.
Esses elementos permanecem como os determinantes centrais do fenômeno. A evolução do endividamento reflete as variações nesses fatores ao longo do tempo analisado, diz a ANJL.
A análise das estatísticas oficiais reforça que os fatores tradicionais da economia continuam exercendo papel preponderante na evolução do endividamento familiar. O comportamento dessas variáveis ao longo dos ciclos econômicos mantém correlação direta com os níveis de comprometimento da renda das famílias brasileiras.
A associação defende que análises sobre o tema devem basear-se em dados concretos de gastos. "As metodologias precisam respeitar as relações causais estabelecidas pela teoria econômica", diz.
Portanto, na visão da ANJL, as falhas metodológicas identificadas comprometem a validade das conclusões apresentadas pelo levantamento. A associação sustenta que o estudo levanta uma hipótese sem apresentar evidências robustas para sustentar suas afirmações principais sobre o papel das apostas no endividamento familiar brasileiro.
"Em síntese, o estudo levanta uma hipótese relevante, mas não apresenta evidências robustas para sustentar que as apostas online tenham se tornado o principal fator de endividamento das famílias no Brasil", declarou Plínio Lemos Jorge, presidente da ANJL.