DIRETOR DE PARCERIAS DE INTEGRIDADE DA SPORTRADAR

Felippe Marchetti: "Brasil pode ser exemplo para o mundo no combate à manipulação de resultados"

Imagem: divulgação/Ministério do Esporte
20-03-2026
Tempo de leitura 5:04 min

Um jogador de futebol recebe a proposta de um aliciador para forçar um cartão amarelo e, assim, beneficiar apostadores que fizeram palpites certeiros já sabendo que a punição aconteceria. 

A cena ilustra um mecanismo recorrente em esquemas de manipulação, que se aproveitam de brechas para lucrar indevidamente. Em um cenário cada vez mais globalizado e digital, identificar esses movimentos e antecipar riscos se tornou um desafio central para o ecossistema do esporte e das apostas online.

Referência em monitoramento, dados e tecnologia esportiva, a Sportradar, tem, no combate à manipulação de resultados, uma das suas principais frentes de atuação. 

Em entrevista exclusiva ao Yogonet, Felippe Marchetti, diretor de parcerias de integridade da Sportradar na América Latina, comentou os principais insights do mais recente relatório global de integridade da empresa e explicou como tecnologias e iniciativas de cooperação vêm fortalecendo a proteção do esporte.

Há pouco tempo, a Sportradar publicou o relatório anual de integridade de 2025 que aponta uma queda mundial de 15% nos casos suspeitos no futebol em comparação com 2024. Que tipo de insight é possível tirar desse dado e de outras informações do relatório?

De maneira geral, essa redução no futebol foi bem importante. Isso não significa que não está acontecendo manipulação, mas que ela pode migrar para outros esportes, até mesmo no esporte brasileiro. Pela primeira vez, vimos uma migração para o basquete — antes era muito concentrado no futebol.

À medida que as entidades esportivas constroem sistemas robustos de integridade, os manipuladores vão procurando brechas e atores que apresentem vulnerabilidades para receber as ofertas [de manipulação].

Em entrevista ao Yogonet no ano passado, você comentou que havia um movimento de manipuladores saindo do Brasil e indo para outros países, como a Argentina. Isso continua acontecendo?

A tendência é que sim, que essa migração continue acontecendo para outros países. O que a gente viu no Brasil foi uma redução no número de casos que se deve muito ao trabalho de vários atores distintos, como o Ministério do Esporte, que está construindo a Política Nacional de Combate à Manipulação de Resultados e fez o primeiro Encontro Nacional de Combate à Manipulação.

A SPA [Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda] está fazendo um trabalho muito integrado com a gente e também com os operadores para a questão do reporte. 

Estamos trabalhando com as entidades esportivas, principalmente com a CBF e com a Conmebol, tanto na questão do monitoramento quanto da conscientização. O manipulador vê que o país vai construindo uma estrutura cada vez mais robusta, com atores treinados, um fluxo de informação que funciona e ele percebe que, no Brasil, está mais complicado [para manipular]. 

Treinamento de integridade para o Grêmio, em 2025 (imagem: divulgação/Grêmio)

A Sportradar tem várias parcerias com federações e frequentemente promove workshops de integridade para clubes. Como você define a importância desse tipo de treinamento não só para atletas profissionais, mas também para as categorias de base?

Fizemos mais de 50 workshops no ano passado, em dez países da América do Sul, falando com diferentes atores, desde atletas, treinadores, árbitros, dirigentes, entidades, polícia, todo o ecossistema. 

É muito importante levar a educação principalmente para os atletas, porque eles são os atores mais vulneráveis à manipulação. Muitas vezes, eles não têm nem noção dos riscos de aceitar uma proposta ou de indicar alguém.

Houve o caso de um goleiro no Rio de Janeiro que rejeitou a proposta, mas perguntaram se ele conhecia alguém que poderia aceitar a proposta e o atleta deu o nome de uma pessoa. Esse cara foi banido do futebol porque o consideraram como um aliciador

Então, é fundamental entender tudo que está por trás e os riscos de se envolver com a manipulação, nem que seja só indicando o nome de alguém ou aceitando a proposta. 

Há alguns exemplos bem positivos, como a plataforma de educação online que as federações do Sul usam. A Federação Paranaense de Futebol, por exemplo, treinou mais de seis mil pessoas no ano passado, de diferentes níveis, desde o futebol amador até a primeira divisão do Campeonato Paranaense. Iniciativas como essas, que vão levando a educação e capilarizando isso em diferentes níveis, são fundamentais e cada vez mais importantes para proteger quem realmente está na linha de frente do esporte.

Que tipo de boa prática internacional o Brasil pode adotar para ter um avanço ainda maior na questão da integridade? Existe alguma que você acredita que poderia ser replicada? Por exemplo, há um tempo, se falava sobre o Brasil entrar na Convenção de Macolin, e o governo deu uma sinalização positiva para a entrada. 

A grande chave é a questão da cooperação entre os diferentes atores. Óbvio que é importante entrar na Convenção de Macolin para uma cooperação internacional, mas é necessário ter um sistema de fluxo de informação interno muito bem organizado

Com a Política Nacional de Combate à Manipulação de Resultados, isso começou a ser construído. Ou seja, as entidades esportivas terem um canal de comunicação direto com o governo, que também tem esse canal de comunicação com os operadores, com as empresas de integridade.

Com isso, é possível saber onde conseguir mais informações e ter uma polícia muito bem treinada que saiba interpretar as informações e saiba como investigar esse tipo de crime extremamente complexo. Com esse sistema robusto, o Brasil não precisa nem se inspirar em modelos internacionais, mas pode ser um exemplo para o resto do mundo. E aí os outros países vão começar a copiar o Brasil e não o Brasil copiar os outros.

De forma geral, quais são as principais tecnologias da Sportradar na parte de integridade?

Temos o Sistema Universal de Detecção de Fraudes (UFDS), que já é conhecido mundialmente. Ele monitora o desvio da cotação esperada e da cotação real, e vai gerando os alertas.

A Sportradar é provedora de dados, então conseguimos ter visibilidade em nível de bilhete de conta de mais de 400 sites ao redor do mundo. É como se fosse um exame de sangue do mercado de apostas desses 400 sites

A grande novidade que a gente traz — e muito focada para o mercado latino-americano — é o Integrity Exchange. O que seria isso? Criamos uma plataforma em que os operadores podem reportar as partidas que eles consideram suspeitas. 

Stand da Sportradar no SBC Summit Rio 2026

Eles recebem o feedback do nosso time se esse jogo realmente foi suspeito ou não em 72 horas, para ter tempo de reportar à SPA. Muito mais do que algo reativo, estamos criando um hub de inteligência com informações que vão vir da polícia, das federações, dos históricos dos atletas que estiveram envolvidos, das movimentações do mercado e todas essas informações são colocadas nessa plataforma. 

Por meio disso, há um fluxo de informação entre Sportradar e operadores que corre muito mais rápido e consegue fazer com que os operadores não ajam só de maneira reativa, mas consigam atuar de maneira proativa, proteger o seu mercado, remover ofertas a tempo, reduzir exposição em partidas de risco e, principalmente, criar uma cultura de integridade de reporte entre todo o ecossistema da indústria de apostas esportivas. Essa é a principal mudança de paradigma que a gente vem criando. 

Hoje, já estamos trabalhando com 55 operadores no mercado regulamentado no Brasil e ajudando eles a criar essa cultura, fortalecer os sistemas que vão sendo criados pelo governo para, cada vez mais, fortalecer a proteção do esporte.

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