O combate à manipulação de resultados no futebol tem sido um tema recorrente na imprensa brasileira nos últimos meses. Um dos fatores que contribuiu para isso foi a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o tema no Senado.
Para saber mais sobre a questão, o Yogonet entrevistou Felippe Marchetti, integrity partnership manager (gerente de parcerias de integridade) da Sportradar.
A empresa atua com tecnologia e dados esportivos, sendo referência em monitoramento e auxiliando diferentes federações ao redor do mundo.
Na visão de Marchetti, as operadoras de apostas esportivas também têm um papel fundamental no enfrentamento à manipulação de resultados e o avanço tecnológico, juntamente com a abordagem humana, ajuda a prevenir riscos à integridade esportiva.
Confira abaixo a entrevista:
Representantes do setor de apostas, como a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), dizem que eles são as principais vítimas de casos de manipulação de resultados. Como você vê o papel das casas de apostas no enfrentamento a esse problema? Há algo que possa ser feito além do intercâmbio de informações com empresas de monitoramento e autoridades?
Para combater a manipulação de resultados, uma abordagem verdadeiramente holística é crucial, com provedores de serviços de integridade, órgãos esportivos, casas de apostas e autoridades policiais/investigativas trabalhando em conjunto e compartilhando informações importantes sobre aqueles por trás das tentativas de manipulação de resultados, identificando apostadores suspeitos, jogadores corruptos e aqueles indivíduos que realmente orquestram a manipulação de resultados.
A Sportradar oferece uma gama de serviços de integridade para ajudar a proteger os esportes de diferentes ângulos e em diferentes momentos. Além do monitoramento de apostas, a empresa oferece serviços de inteligência e investigações, workshops de educação e prevenção para jogadores e administradores no esporte e o Sportradar Integrity Exchange global para casas de apostas relatarem facilmente qualquer aposta suspeita que vejam. Operadores têm papel fundamental:
Com a CPI da Manipulação dos Jogos e Apostas Esportivas, ficou em evidência a questão da metodologia usada para identificar possíveis manipulações no futebol. Ferramentas de inteligência artificial (IA) são capazes, por si só, de apontar quando há algo suspeito ou a análise humana sempre será necessária?
A IA é fundamental, sendo o primeiro passo para detecção, porém, a análise humana é determinante pois há fatores que podem explicar o comportamento dos mercados, como por exemplo: lesões, condições meteorológicas, motivação das equipes, altitude, escalação das equipes, logística para chegar ao evento, dentre outros.
O investimento contínuo no desenvolvimento de tecnologia é essencial para detectar ocorrências de manipulação de resultados que seriam difíceis de encontrar.
Em combinação com o acesso a dados em nível de conta, colaboração em todo o setor e especialistas humanos, temos um conjunto de ferramentas poderosas para ajudar a prevenir e detectar riscos à integridade esportiva.
Mais avanços na luta contra a manipulação de resultados serão possíveis à medida que os modelos de IA continuarem a aprender e continuaremos aprimorando nossa expertise para proteger o esporte da manipulação.
A Sportradar adota uma abordagem holística e multifacetada para a detecção de manipulação de resultados, impulsionada por sua tecnologia líder de mercado e uma unidade de especialistas em Serviços de Integridade.
Felippe Marchetti
Na última conversa que tivemos no SBC Summit Rio, você reforçou a importância da educação e da conscientização para os atletas, sendo que a Sportradar também oferece workshops e palestras. Como tem sido a recepção dos atletas e clubes a essa abordagem? Acredita que o Brasil está avançando bem em termos de integridade?
A recepcão tem sido muito boa, os atletas se surpreendem com algumas informações que levamos e também com a extensão do problema. Além disso, cada atleta que recebe a informação é um potencial propagador de conhecimento, levando o aprendizado a mais colegas.
Houve uma queda relativa nas suspeitas de manipulação de resultados no mercado brasileiro. Até o momento, temos uma boa notícia, no primeiro semestre de 2024 houve uma redução de 60% no número de casos em relação ao mesmo período do ano passado.
Esperamos que nosso trabalho e a conscientização dos envolvidos contribuam para o crescimento desses números positivos no país.
Há algum país específico que você citaria como exemplo de integridade? Quais medidas adotadas podem ser replicadas no Brasil?
Alguns países da Europa com certeza são destaque. Alemanha e Itália, por exemplo, realizaram o Integrity Tour com workshops para os clubes que participam das principais competições.
Na Ásia, a Confederação Asiática de Futebol (AFC) tem um app para atletas reportarem anonimamente casos suspeitos de manipulação.
O setor de apostas é extremamente globalizado. Por exemplo, uma empresa com sede em Malta oferece opções de palpites em um jogo da série D do Brasileirão e uma pessoa nos Estados Unidos consegue fazer as suas apostas nessa partida. Você diria que isso dificulta o combate à manipulação de resultados por envolver jurisdições distintas (sendo que nem sempre há cooperação entre autoridades dos países) ou é indiferente?
Certamente dificulta, pois as casas de apostas localizadas em países onde não há regulamentação não são obrigadas a reportar atividades suspeitas, tornando o trabalho de detecção mais árduo, sem acesso à informação sobre quem são os apostadores por trás das apostas suspeitas.
Entretanto, com o UFDS [Universal Fraud Detection System, plataforma da Sportradar] conseguimos também monitorar os mercados ilegais e detectar quando há movimentações suspeitas, auxiliando as federações no combate ao problema.