O portal G1 informa que a Loterj, órgão do Governo do RJ responsável pela gestão das loterias do Estado, acusa a empresa MCE Intermediações e Negócios LTDA de não repassar os valores das vendas dos bilhetes da loteria "Rio de Prêmios" há quase seis meses. O total do calote que a empresa deu na Loterj já superou os R$ 30 milhões
Além da falta de repasse, o Governo do RJ também alega que um de seus principais produtos, o Rio de Prêmios, parou de ser distribuído nos pontos de venda do estado, segundo a reportagem.
No final de novembro, a Loterj emitiu nota oficial divulgou uma nota oficial sobre a interrupção da comercialização da modalidade Rio de Prêmios, que era vendida há mais de 16 anos pela autarquia.
“No último domingo [26 de novembro] o produto Rio de Prêmios teve sua comercialização interrompida, em desacordo com o contrato celebrado entre a empresa MCE Intermediações e Negócios LTDA e esta Autarquia. Após o sorteio ao vivo, transmitido pela Record Rio, todas as redes sociais, site e aplicativo do Rio de Prêmios foram atualizados para o Cap Mania, produto sem qualquer participação ou autorização da LOTERJ, não possuindo a Autarquia qualquer responsabilidade junto ao mesmo, inclusive quanto ao pagamento de prêmios”, informa a nota oficial.

Reportagem
Depois do último sorteio, no domingo (26), os bilhetes do "Rio de Prêmios" desapareceram do mercado, segundo a reportagem do G1. Além de não encontrar os bilhetes nas bancas, os clientes também não conseguem mais obter informações pela internet ou pelas mídias sociais.
A reportagem do RJ2, jornal da TV afiliada a rede Globo no estado, percorreu bancas de jornais pelo Rio tentando comprar bilhetes do "Rio de Prêmios", mas só encontrou bilhetes do Cap Mania.
Nesta quarta-feira (29), a equipe do RJ2 comprou um bilhete do Cap Mania com sorteio previsto para 3 dezembro. Como todo título de capitalização, este possui um número de autorização da Superintendência de Seguros Privados (Susep). Ao consultar o número do bilhete no site da Susep, uma mensagem avisa: "este produto não pode mais ser comercializado".
Por lei, grande parte do lucro arrecado pela Loterj tem que ser aplicado em projetos sociais, escolas, creches. Com a briga entre o Governo e a MCE, atualmente existe um produto privado sendo vendido no lugar e no espaço de um produto público.

A Loterj é uma das loterias estaduais mais antigas do Brasil, criada em 1944. E o "Rio de Prêmios", um de seus principais produtos, com sorteios todos os domingos e pagamento, em dinheiro, a quem acertar 20 dezenas do jogo.
Em fevereiro de 2020, a Loterj assinou um contrato com duração de 5 anos com MCE Intermediações e Negócios LTDA.
Com o acordo, a MCE ficou responsável pela administração e operação da chamada loteria convencional, onde está o "Rio de Prêmios". A estimativa de arrecadação até o fim do contrato é de mais de R$ 318 milhões. Desse total, R$ 121 milhões ficariam com a empresa contratada.
Pelo contrato, a MCE tem até 18 dias para repassar à Loterj todo o valor referente à venda dos bilhetes.
A direção da Loterj diz que a MCE parou de repassar o dinheiro da venda dos bilhetes em junho. Segundo o órgão do governo, todas as faturas foram cobradas e os atrasos notificados.
A Loterj diz também que chegou a acionar a seguradora que garante o contrato entre as duas partes. Contudo, a Potencial Seguradora alegou "questões intransponíveis que impediram o pagamento da indenização".
Especialista suspeita de contrato
O advogado Gustavo Schiefler, especialista em direito administrativo, acredita que existem falhas no contrato da Loterj com a MCE. Para ele, os recursos da loteria não deveriam passar pela MCE. Schiefler também disse ao RJ2 que o contrato entre as duas partes deveria ser suspenso já no primeiro mês de atraso no pagamento.
"A dívida já se acumula por 5 meses, período significativo, dado o volume do contrato. Aparentemente não teve suspensão do contrato, para mitigar o risco de que o dano se acumulasse. (...) São diversas faturas e a garantia que foi prestada, a garantia exigida é de apenas 2%, que é muito inferior ao valor que hoje é devido", argumentou o advogado.
"Seria interessante de início romper as atividades. Também seria prudente tão logo a vultuosidade com uma primeira dívida, que fosse instaurado um processo", comentou Gustavo Schiefler.
O especialista em direito administrativo também argumenta que a arrecadação com a venda dos bilhetes deveria ser direcionada para uma conta do Governo do Estado.
"Esse contrato tem várias falhas de modelagem. Não me parece fazer sentido, que a arrecadação dos prêmios pagos não seja feita numa conta de titularidade do estado", finaliza o advogado.
O que dizem os citados
Em nota, a Loterj informou que o "Rio de Prêmios" foi interrompido no domingo depois de 16 anos, em desacordo com o contrato celebrado com a empresa MCE. Segundo eles, a mudança nas redes sociais e no site foi feita sem autorização.
Já a MCE disse estar em tratativas para pagar a dívida com a Loterj e que 38% desse valor será abatido, conforme previsto em contrato.
A MCE declarou ainda que não tem qualquer vínculo com a Via Cap ou Cap Mania e que pediu à empresa que administra o site do "Rio de Prêmios" que pare de encaminhar os usuários ao site da Cap Mania.
Em relação ao bilhete da Cap Mania comprado na quarta-feira (29) pela reportagem e que, segundo a Susep, não poderia mais ser comercializado, a empresa Via Cap informou que publicou em seu site e nas redes sociais uma errata, que diz:
"Comunicamos que no título da edição do sorteio que ocorrerá em 03/12/2023 onde consta "autorização processo Susep nº 15414.646687/2023-34" deve-se ler "autorização processo Susep nº 15414.647552/2023-96". E onde consta Fundação Abrinq, deve-se considerar Apae Brasil. A correção não altera os valores da premiação ou a dinâmica de sorteio e não traz nenhum prejuízo aos participantes".