DIRETOR DE INTEGRIDADE E COMPLIANCE DO H2

Rafael Rebelo: "Operadores que anteciparam tendências regulatórias estão rumando para um ecossistema mais consolidado"

16-03-2026
Tempo de leitura 5:23 min

Diretor de integridade e compliance do H2bet, Rafael Rebelo vive de perto os desafios regulatórios e operacionais do mercado de apostas online no Brasil. Em entrevista exclusiva ao Yogonet durante o SBC Summit Rio, ele fez uma avaliação do que 2025 representou para o setor e classificou a "interoperabilidade" como uma das próximas tendências da indústria.

Rebelo também comentou a expectativa com a Copa do Mundo e o combate às bets ilegais, que atuam no país sem licença e sem oferecer as mesmas garantias de segurança dos operadores regulamentados. O mercado clandestino é, na sua visão, "um problema gigantesco que se resolve por etapas". 

Confira a entrevista:

O Brasil teve, em 2025, o primeiro ano do mercado regulado de apostas online, um período de adaptações e desafios. Como você enxerga esse primeiro ano para a empresa e para o setor como um todo?

Eu esperava um ano de consolidação. O que a gente percebeu é que foi um ano adicional de preparação para um mercado totalmente desconhecido. O que difere a preparação da consolidação? Em vez de amadurecer ao máximo o mercado e garantir uma estabilidade para os operadores regulados, passou-se o ano se preparando e não houve espaço para que se consolidassem as normas.

O que atrapalha também essa etapa de consolidação — que deveria ter acontecido no primeiro ano e não aconteceu — são muitos regramentos sendo editados e lançados em um curto período de tempo. 

Em síntese, foi um ano bom, principalmente porque a gente sai de uma zona cinzenta e vai para um mundo onde as coisas estão muito mais claras. Conseguimos perceber que o mercado está comprometido com a regulamentação. A gente tira o peso da obrigação regulatória ser só um fardo para virar uma vantagem competitiva.

Os operadores que fizeram o movimento de antecipação das tendências regulatórias, modificação de fluxos e observação da lei e dos regramentos como um ponto de partida estão rumando para um ecossistema mais consolidado em 2026.

É um balanço positivo no final das contas, mas esse grande volume de normativas e regras postas [em 2025] não permitiu que o mercado se assentasse como um todo. Soma-se a isso uma instabilidade política e regulatória muito grande. Nós ficamos quase o ano inteiro em dúvida sobre o que aconteceria com a tributação, se os tributos seriam majorados, e as incertezas tornaram o ano um pouco mais difícil.

Para o H2 em específico, a gente aproveitou para mudar o cenário e o nosso paradigma. A conformidade regulatória apareceu como vantagem competitiva e conseguimos fazer com que diversas dessas obrigações regulatórias fossem mostradas para o público como um ponto positivo da nossa operação.

Uma preocupação muito frequente é a concorrência desleal do mercado ilegal, ou seja, as plataformas que não adquiriram a licença e estão operando no Brasil. Você também acha que essa é uma grande preocupação para 2026? Diria que é um problema que o Brasil ainda não está conseguindo enfrentar ou você vê avanços nos últimos meses?

Os dados do ano passado apontam para quase a metade do mercado, de todo o turnover, de todos os valores que circulam nas apostas, dentro do mercado ilegal. Então, é lógico que é um desafio. Sempre que você tem um concorrente que não está submetido a uma estrutura tributária tão alta, você é prejudicado por uma concorrência desleal

Só que 2026 precisa ser um ano de enfrentamento não só do governo, mas os próprios operadores precisam fazer alguns movimentos para se alinharem mesmo de forma uníssona entre a indústria para discutir formas de enfrentar esse mercado [ilegal].

É um problema gigantesco que se resolve por etapas, como qualquer outro problema gigantesco. Quais seriam as principais etapas do enfrentamento? Estudar melhor o arcabouço tecnológico dessas pessoas, entender melhor como detectar os sites fraudulentos, os maiores vetores, e combatê-los.

Em ações práticas, é literalmente explorar o código fonte de uma página de bet suspeita e, explorando o código-fonte, vão ser encontradas várias semelhanças e será possível detectar muitas páginas.

Precisamos urgentemente de uma ação mais coordenada de modo que os meios de pagamento não processem mais esse tipo de transação. A crítica que eu faço é que não tem como o ente regulado ficar responsável pela supervisão e fiscalização. Isso não acontece em nenhum mercado. Quero ser um braço, uma extensão do poder estatal, mas de nenhum modo ficar responsável por isso.

Acho que precisamos de ações mais coordenadas e bem desenvolvidas, senão, em 2026, a consolidação vai para o lado errado, do mercado ilegal.

É legal você falar da questão da consolidação, porque, daqui a três meses, será realizada a Copa do Mundo. Ao mesmo em que a expectativa é boa diante da entrada de novos apostadores, existe também uma preocupação de que o torneio possa ser um impulso para o mercado ilegal. Ou seja, haverá mais gente apostando, mas, ao mesmo, também pode haver mais apostadores no mercado ilegal. Como você vê essa questão?

É uma grande oportunidade e vai bater à porta de todos. O H2, por exemplo, está mais bem posicionado no futebol. Hoje, temos um grande patrocínio com o Atlético Mineiro. Nós conseguimos aproveitar mais esse movimento e conversar com um tipo de público que tem uma afinidade com o produto do futebol.

Ao mesmo tempo, não acho que vai empurrar para o mercado ilegal, mas para algumas práticas ilegais. Grandes fraudadores e intermediadores de apostas [que fazem apostas em nomes de terceiros], proibidos pela lei, aproveitam esse momento para injetar apostas dentro do mercado. São apostas relativamente ilícitas porque elas estão sendo cursadas dentro do mercado lícito, só que através de uma prática ilícita. 

Vão utilizar recursos de intermediação de apostas de terceiros, fazendo apostas como anotadores. Acho que essa vai ser a principal tendência irregular ou ilegal para a Copa.

Há um segundo ponto muito importante, principalmente do ponto de vista de riscos, integridade e compliance. Na Copa, os ativos publicitários diminuem. Eles se reduzem a poucas marcas registradas de propriedade da organizadora do evento: FIFA, Copa do Mundo, etc. 

Nesse cenário, fica muito mais fácil detectar uma publicidade irregular que menciona poucas marcas. Por mais que seja um evento muito grande, nada se compara à multiplicidade de jogos de futebol que existem no mundo, em que é necessário esparramar mais os controles.

Se houver um enforcement muito grande, há uma capacidade maior de contribuir com a repressão ao mercado ilegal, pelo menos nessa época. Do ponto de vista de riscos, vai afunilar. E esse afunilamento vai deixar um pouquinho mais simples para onde temos que olhar.

O mercado de apostas online é uma indústria muito nova. A maioria dos profissionais vem de outras áreas, é difícil encontrar alguém que tenha começado a carreira nesse mercado. De acordo com o seu LinkedIn, você mesmo começou em outros setores. Você acha que é positiva ter essa diversidade ou acredita que o ideal seria um mercado com mais profissionais que já tivessem “nascido” no mercado de jogos?

Eu gosto do mix. A beleza da completude reside nessa diversificação de profissionais. Tenho, por exemplo, jornalista e publicitário no meu time, e o time é de riscos.

Os pontos vão se aprimorando juntos, as visões são complementares e precisamos lembrar que trabalhamos com entretenimento, só que é um entretenimento cuja regulamentação se espelhou na regulamentação financeira e, principalmente, na bancária.

Então, profissionais que vêm do mercado financeiro, como foi o meu caso, têm mais facilidade de perceber como as leis e regramentos estão posicionados e quais serão as próximas tendências. 

Por exemplo, para 2026, eu projeto a interoperabilidade pensando que lá atrás o Banco Central fez uma resolução chamada Resolução Conjunta Nº 6, que é uma resolução de compartilhamento de dados de fraudadores entre as instituições financeiras. Isso é interoperabilidade, você juntar vários operadores e fazer com que eles operem juntos para o bem do mercado. Essa, para mim, é uma das próximas tendências do mercado de apostas.

A visão do mercado financeiro tem cantado todas as pedras nesse bingo. A partir do momento que a gente constitui times com competências distintas, você consegue prever movimentos e aprimorar os seus próprios.

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