ANÁLISE DA PARIENTE ADVISORY

Reflexões a partir da ICE Barcelona: o momento do mercado brasileiro de jogos e apostas

Alex Pariente, da Pariente Advisory
30-01-2026
Tempo de leitura 2:49 min

O mercado regulado de apostas no Brasil entrou em uma nova fase em 2026, marcada pelo uso de dados concretos, fiscalização ativa e uma agenda regulatória em evolução. Após anos de debates conceituais, o país passou a operar com métricas reais, o que tem influenciado tanto políticas públicas quanto decisões estratégicas do setor privado.

As discussões realizadas durante o ICE Barcelona reforçaram uma percepção compartilhada entre operadores, investidores e reguladores internacionais: o Brasil reúne todos os elementos para se consolidar como um dos mercados de apostas mais relevantes do mundo, desde que a transição seja conduzida com governança, coordenação institucional e visão de longo prazo.

Nesse contexto, a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF) deu um passo relevante ao passar a divulgar informações periódicas sobre o funcionamento do setor. A iniciativa permite que o mercado avance com base em evidências concretas, aumentando a previsibilidade regulatória.

De acordo com dados oficiais referentes a 2025, o mercado regulado brasileiro registrou mais de 25 milhões de apostadores únicos, cerca de 100 milhões de contas ativas e uma geração estimada de R$ 36,9 bilhões em GGR. Do total, aproximadamente R$ 4,5 bilhões foram destinados a finalidades legais, reforçando o potencial econômico do setor — e, ao mesmo tempo, ampliando a responsabilidade regulatória.

Mercado ilegal segue como principal desafio

A experiência internacional demonstra que mercados ilegais não desaparecem apenas com a criação de regras. Eles se adaptam. Sempre que o ambiente regulado impõe fricções superiores à capacidade de fiscalização — seja por limitações excessivas, restrições publicitárias ou entraves operacionais — parte dos consumidores tende a migrar para plataformas offshore.

O esforço do governo brasileiro nesse combate é significativo. A SPA/MF reportou o bloqueio de milhares de sites ilegais, além de processos administrativos em andamento e ações coordenadas contra publicidade irregular. O ponto central, no entanto, está no equilíbrio entre restrição regulatória e capacidade de enforcement. Quando essas variáveis avançam em ritmos diferentes, os efeitos econômicos e fiscais podem se inverter.

Concentração e pressão por escala

O mercado brasileiro já apresenta sinais claros de concentração, ao mesmo tempo em que o custo de aquisição de clientes cresce de forma consistente, pressionando margens e acelerando a necessidade de escala. Esse cenário tende naturalmente à consolidação.

No entanto, nem todos os operadores estarão aptos a participar desse movimento. O principal fator limitante não será a falta de capital, mas sim o nível de maturidade institucional. “Capital aceita risco. Capital não aceita opacidade.”

Governança como diferencial competitivo

À medida que o setor amadurece, a governança deixa de ser apenas um requisito regulatório e passa a atuar como geradora de valor econômico. Estruturas claras de decisão, controles internos robustos, independência operacional e disciplina de reporte tendem a diferenciar os operadores capazes de sustentar crescimento, atrair investimentos e manter um diálogo construtivo com o regulador.

Jogo responsável e debate sobre jogos presenciais

O avanço das políticas de jogo responsável no Brasil representa um dos pilares da nova fase regulatória. Mais do que uma obrigação legal, o tema deve ser encarado como infraestrutura institucional, reduzindo riscos políticos, fortalecendo a legitimidade do mercado e contribuindo para sua sustentabilidade de longo prazo.

Outro ponto relevante é o debate sobre a regulamentação de jogos presenciais e resorts integrados, que ainda carece de um marco claro. Projetos desse tipo têm potencial para gerar empregos, fomentar o turismo, estimular o desenvolvimento regional e atrair investimentos de longo prazo — fatores estratégicos para equilibrar o debate político, especialmente em anos eleitorais.

Perspectivas

O Brasil dispõe hoje de dados, estrutura regulatória inicial e interesse de capital suficientes para a construção de um mercado sólido de apostas. O avanço para o próximo estágio dependerá do fortalecimento da governança, do alinhamento entre regulação e fiscalização e da manutenção de um diálogo institucional contínuo entre o setor privado e o Estado.

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