Em texto publicado em sua coluna no site da revista Veja, o delegado federal aposentado e ex-membro da Interpol Jorge Pontes abordou a crescente participação das apostas online no cenário do futebol e a preocupação com o combate ao crime.
Pontes repercutiu a informação de que 15 dos 20 clubes da Série A do Brasileirão contam com uma casa de apostas como seu patrocinador principal, dado que faz o Brasil liderar esse quesito entre os maiores campeonatos de futebol do mundo.
O especialista em segurança pública acredita que existe um risco relacionado à forte conexão entre o setor de apostas e o esporte, citando escândalos envolvendo atletas em países da Europa.
“Não se aposta somente no time que vai ganhar ou nos jogadores que vão balançar as redes, mas em situações secundárias, que não guardam apelos esportivos ou envolvem paixões, como, por exemplo, quem vai provocar o primeiro lateral, quem vai levar cartão amarelo ou quem vai colocar a mão na bola. Afinal, game e gambling são vocábulos parecidos com significados bem distintos”, avalia.
Ele, no entanto, faz um contraponto. “Apesar dos riscos no campo esportivo, entendemos que a pior escolha seria a proibição, que efetivamente não iria impedir a atuação de operadores de apostas on-line estabelecidos em off-shores. E nem tampouco impediria que nossas partidas sejam objeto de apostas em plataformas sediadas no exterior”, diz Pontes.
Para o delegado aposentado, o crime organizado vem ganhando terreno em setores da economia e mercados estratégicos no Brasil. Daí a importância, em sua visão, de um esforço das autoridades para impedir que os criminosos encontrem espaço para suas práticas ilícitas no mundo das apostas online.
“Temos que seguir concebendo uma regulamentação anticrime by design e, também, com a capacidade de rastreamento de 100% das apostas. Caso contrário, as plataformas de betting serão irremediavelmente utilizadas como lavanderias para diversas morfologias criminosas”, argumenta.
Pontes defende também que seja feita uma due diligence (processo de investigação extensa) de empresas e indivíduos que ingressem no ramo. “Por oportuno, com o arrefecimento do interesse pelo jogo do bicho, ocorrido com as novas gerações de brasileiros, temos também que nos precaver para que as organizações criminosas formadas em torno dessa contravenção não acabem migrando para as apostas on-line”, finaliza.