A crescente expansão das plataformas de jogos de azar on-line, bem como os anúncios nas redes sociais promovendo cassinos e jogos de azar virtuais, que se intensificaram com a pandemia, despertam o interesse e a preocupação de muitos setores.
Das 23 províncias da Argentina, 15 delas e a Cidade Autônoma de Buenos Aires têm regulamentações para jogos de azar on-line. O Instituto de Loteria e Cassinos da Província de Buenos Aires (IPLyC) alertou que "os jogos de azar on-line se espalharam por quase todo o mundo" e que alguns países conseguiram regulamentá-los, mas outros não. Na Argentina, 80% dos sites são clandestinos (e o número continua crescendo).
Dado que a receita tributária proveniente do jogo não segue essa curva de crescimento exponencial, está comprovado que a maior parte dela vem do jogo ilegal, diz um relatório da Universidade de Mar del Plata.
Nessa linha, Roberto Paez, secretário geral da Associação de Administração, Gestão e Serviços de Cassinos (AMS), enfatizou que essa atividade em expansão só aprofunda uma "concorrência desleal" dentro do setor.
"A verdade é que estamos preocupados, já denunciamos isso quando a lei foi aprovada em 2017, durante o governo Vidal. As sete licenças habilitadas na regulamentação do jogo on-line deixam apenas uma contribuição de 10% para os cofres da província, o que não é nada. Temos que nos envolver, a sociedade tem que se envolver", disse Paez ao Portal Universidad.
"Sabemos que, no momento, há muitos aplicativos. Estamos levantando a necessidade de tentar gerar algo a partir das esferas legislativas", disse ele.
"Os centros de jogo compulsivo têm a possibilidade de tratar todos os jogadores compulsivos. Acreditamos que eles devem ter todos os instrumentos para garantir maiores controles. Por exemplo, fazemos autoexclusões. Os problemas com jogos de azar são os problemas de qualquer vício, que acabam no coração da família. É um vício como qualquer outro. O Estado deve ter a necessidade e a responsabilidade de regulamentá-lo, para proteger os menores e os setores de baixa renda", acrescentou o sindicalista.
Especialistas em saúde mental, bem como autoridades da Defensoria do Povo e do IPLyC, alertaram sobre o crescente uso de cassinos on-line entre meninos e meninas entre 15 e 25 anos de idade, especialmente meninas esportistas. Eles relacionam isso com a crise econômica, a hiperconectividade e o aumento da publicidade na mídia, que promete "grandes ganhos de forma rápida e fácil", além de entretenimento.
"De certa forma, ele poderia ser definido como um dos 'vícios contemporâneos', ou não necessariamente um vício, mas um tipo de consumo problemático que implicaria em uma relação com determinado conteúdo virtual na web no qual uma substância psicoativa não está envolvida. Seria interessante enquadrá-lo no contexto de vícios comportamentais sem uma substância psicoativa, o que muda o foco de como estamos acostumados a trabalhar com vícios", disse Lucas Tosi, formado em Psicologia pela Universidade Nacional de Mar del Plata e com mestrado em Dependência de Drogas pela Universidade de Del Salvador, em declarações ao Portal Universidad.
"Não estamos muito acostumados a realizar pesquisas sistemáticas em nosso país, não há uma cultura acadêmica sobre essas questões e há muito a ser feito nesse sentido. Pode haver estudos de algumas universidades, mas não há estudos em grande escala. Os relatórios da Secretaria Nacional de Políticas Integrais sobre Drogas se concentram principalmente nos padrões de consumo de substâncias psicoativas, mas não estudam o conteúdo virtual", disse ele.
Ele também considerou que quanto mais jovem uma pessoa é exposta ao uso de drogas, maior é a probabilidade de que ele se desenvolva de forma problemática. "Temos que acrescentar que a pessoa está em um estágio de desenvolvimento neuropsicológico, de desenvolvimento de sua identidade e de seus laços sociais. O uso viciante e não mediado por substâncias, como nesse caso, sem dúvida afeta o desenvolvimento", disse ele.
Tosi também enfatizou: "Parece-me que essa é uma questão mais interpretativa. Temos que pensar em todas essas variáveis e analisar o problema do consumo como um problema não individual. Ele se enquadra na diversificação das práticas de consumo e em toda uma série de mensagens sociais ideológicas que sistematicamente insistem e favorecem o consumo de substâncias, ou o jogo, neste caso. Podemos observar tudo o que tem a ver com anúncios de apostas em jogos de futebol. É nesse ponto que o trabalho do Estado tem a ver com a prevenção.
Por fim, ele enfatizou a importância de abordar o problema abertamente "da maneira mais autêntica e transparente possível" e de criar um espaço de comunicação aberto e horizontal na esfera familiar e educacional que possa fornecer informações quando chegar o momento do consumo problemático.
"Vejo a necessidade de implementação e elaboração de políticas e leis que visem trabalhar na prevenção do uso problemático de drogas desde a primeira infância. Precisamos falar sobre isso nos níveis educacionais iniciais para tornar visível e expor esse problema em escala internacional, que é tratado pela mídia de forma banal. É uma expressão de uma população muito mais ampla, onde há uma multiplicidade de práticas de consumo que são problemáticas sem serem viciantes", concluiu o profissional.